Velha pele para uma cerimônia antiga

Aos 70 anos, Leonard Cohen finalmente grava outro álbum digno de seu talento


Costuma-se dizer que, em termos de letras, o único rival de Bob Dylan é o bardo canadense Leonard Cohen. No campo da música, no entanto, Cohen quase sempre esteve à frente de Dylan. Suas canções são geralmente mais elaboradas, com melodias tão belas quanto melancólicas. Seu trabalho anterior, Ten New Songs (de 2001), surpreendia negativamente justamente por não trazer nenhuma canção realmente memorável. Para ruim o disco não servia, mas foi uma grande decepção vindo de alguém que estava há quase dez anos sem apresentar nenhum trabalho novo. Ao que parece, o declínio musical foi um lapso temporário. Com Dear Heather, Cohen nos apresenta sua melhor coleção de composições desde o brilhante I’m Your Man, de 1988. Supera até mesmo The Future, de 1992, que apesar de trazer ótimos momentos, era um tanto quanto irregular.

No geral, a primeira coisa que se nota é o maior cuidado com os arranjos e instrumentação. Ultimamente essa parte vinha sendo perigosamente negligenciada, com teclados fuleiros e batidas eletrônicas baratas dominando seus trabalhos mais recentes. “Go No More A-Roving”, poema de Lord Byron musicado por Cohen, começa com um sax sem-vergonha, que só não leva a canção para uma breguice sem tamanho porque, bem, estamos falando de Cohen. Afinal, o velhinho (que completou 70 anos em setembro) já tinha conseguido se safar de uma dessas com “Ain’t no Cure For Love” há 16 anos. Daí para a frente a coisa só melhora. “Because Of”, de levada manhosa e sexy é praticamente uma declaração de volúpia da terceira idade. Na mais explicitamente autobiográfica letra do disco, Cohen confessa que apesar da idade avançada, as mulheres têm sido excepcionalmente gentis com ele. Tudo porque escreveu algumas canções sobre os mistérios delas. “Elas ficam nuas de maneiras diferentes e dizem/ Olhe para mim, Leonard/ Olhe uma última vez”, diz ele de um modo muito safado para quem há algum tempo canta sobre dores que sente nos locais onde costumava brincar.

A voz de Cohen cada vez mais se reafirma como um sussuro grave e ríspido, mas que combina perfeitamente com o tom de suas músicas. Em “The Letters” ele retoma o tema de fim de relacionamento, sempre presente em sua obra. Com vocais divididos com Sharon Robinson, Cohen lamenta um amor literalmente não correspondido. “Undertow”, outra de suas belas valsas, tem os vocais principais a cargo de Robinson, com o próprio Cohen se limitando aos vocais de fundo. “Morning Glory” começa como um daqueles jazz de filme noir e de repente vira quase um hino religioso, com vocais angelicais femininos e tudo (cantados, dessa vez, por outra velha companheira de estrada, Anjani Thomas). Em seguida, Cohen se arrisca num terreno onde outras criaturas talentosas falharam feio: uma música sobre o 11/9. Ao contrário de Neil Young, que meteu os pés pelas mãos ao tratar do mesmo assunto, Cohen consegue compor uma canção digna e delicada. A canção traz de volta à sua música um instrumento que há muito ele não usava, a jew’s harp. Outro destaque vai para o belo encarte do disco, onde Cohen se revela também um excelente ilustrador.

O momento mais sublime do álbum vem com “Villanelle For Our Time”, com letra de outro poeta canadense, Frank Scott. Cohen começa declamando a letra para, em seguida, piano, baixo e bateria virem de mansinho fazer a cama para palavras pungentes. Cada vez que ele começa um verso com “From bitter searching of the heart” e termina com “We rise to play a greater part” é inevitável sentir uma punhalada no peito. Com essa música, entende-se perfeitamente o que Kurt Cobain queria dizer quando falava que Leonard Cohen era capaz de fazê-lo suspirar eternamente. “There For You” e “To a Teacher”, com programações eletrônicas são as que mais lembram as coisas do disco anterior. A canção título também é de uma beleza devastadora. É a primeira vez em mais de vinte anos que Cohen grava algo que se assemelha com trabalhos de sua primeira fase. “Dear Heather” é quase uma música de realejo, levada por um órgão, um trumpete e uma das letras mais curtas de Cohen, repetida infinitamente ao ponto de desmontá-la, soletrando-a. A singela “Nightingale” tem um acento country e traz Cohen novamente tocando sua jew’s harp.

Para reafirmar a volta ao passado, em “The Faith” Cohen conta com a participação de músicos que não apareciam em seu trabalho há algum tempo, como o violinista Raffi Hakopian e o sensacional tocador de oud (espécie de alaúde) John Bilezikjian. Baseada numa canção folk de Quebec, a música soa como Leonard Cohen clássico. Como bônus, o disco traz uma gravação ao vivo de 1985 para uma cover de uma velha canção country, a tristíssima “Tenessee Waltz”. Dear Heather muito provavelmente não vai aparecer em nenhuma lista de melhores do ano, mas é daqueles discos que décadas depois serão redescobertos e reverenciados como merecem. Ouça e suspire eternamente.

Gabriel Rocha

Cotação:

Bar do Franck
Havana
Subway
Tulipa
Red Café

Texto publicado em algum momento de 2004 no Marca Diabo, filho ilegítimo d’O Malaco