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Velha pele para uma cerimônia antiga

Aos 70 anos, Leonard Cohen finalmente grava outro álbum digno de seu talento


Costuma-se dizer que, em termos de letras, o único rival de Bob Dylan é o bardo canadense Leonard Cohen. No campo da música, no entanto, Cohen quase sempre esteve à frente de Dylan. Suas canções são geralmente mais elaboradas, com melodias tão belas quanto melancólicas. Seu trabalho anterior, Ten New Songs (de 2001), surpreendia negativamente justamente por não trazer nenhuma canção realmente memorável. Para ruim o disco não servia, mas foi uma grande decepção vindo de alguém que estava há quase dez anos sem apresentar nenhum trabalho novo. Ao que parece, o declínio musical foi um lapso temporário. Com Dear Heather, Cohen nos apresenta sua melhor coleção de composições desde o brilhante I’m Your Man, de 1988. Supera até mesmo The Future, de 1992, que apesar de trazer ótimos momentos, era um tanto quanto irregular.

No geral, a primeira coisa que se nota é o maior cuidado com os arranjos e instrumentação. Ultimamente essa parte vinha sendo perigosamente negligenciada, com teclados fuleiros e batidas eletrônicas baratas dominando seus trabalhos mais recentes. “Go No More A-Roving”, poema de Lord Byron musicado por Cohen, começa com um sax sem-vergonha, que só não leva a canção para uma breguice sem tamanho porque, bem, estamos falando de Cohen. Afinal, o velhinho (que completou 70 anos em setembro) já tinha conseguido se safar de uma dessas com “Ain’t no Cure For Love” há 16 anos. Daí para a frente a coisa só melhora. “Because Of”, de levada manhosa e sexy é praticamente uma declaração de volúpia da terceira idade. Na mais explicitamente autobiográfica letra do disco, Cohen confessa que apesar da idade avançada, as mulheres têm sido excepcionalmente gentis com ele. Tudo porque escreveu algumas canções sobre os mistérios delas. “Elas ficam nuas de maneiras diferentes e dizem/ Olhe para mim, Leonard/ Olhe uma última vez”, diz ele de um modo muito safado para quem há algum tempo canta sobre dores que sente nos locais onde costumava brincar.

A voz de Cohen cada vez mais se reafirma como um sussuro grave e ríspido, mas que combina perfeitamente com o tom de suas músicas. Em “The Letters” ele retoma o tema de fim de relacionamento, sempre presente em sua obra. Com vocais divididos com Sharon Robinson, Cohen lamenta um amor literalmente não correspondido. “Undertow”, outra de suas belas valsas, tem os vocais principais a cargo de Robinson, com o próprio Cohen se limitando aos vocais de fundo. “Morning Glory” começa como um daqueles jazz de filme noir e de repente vira quase um hino religioso, com vocais angelicais femininos e tudo (cantados, dessa vez, por outra velha companheira de estrada, Anjani Thomas). Em seguida, Cohen se arrisca num terreno onde outras criaturas talentosas falharam feio: uma música sobre o 11/9. Ao contrário de Neil Young, que meteu os pés pelas mãos ao tratar do mesmo assunto, Cohen consegue compor uma canção digna e delicada. A canção traz de volta à sua música um instrumento que há muito ele não usava, a jew’s harp. Outro destaque vai para o belo encarte do disco, onde Cohen se revela também um excelente ilustrador.

O momento mais sublime do álbum vem com “Villanelle For Our Time”, com letra de outro poeta canadense, Frank Scott. Cohen começa declamando a letra para, em seguida, piano, baixo e bateria virem de mansinho fazer a cama para palavras pungentes. Cada vez que ele começa um verso com “From bitter searching of the heart” e termina com “We rise to play a greater part” é inevitável sentir uma punhalada no peito. Com essa música, entende-se perfeitamente o que Kurt Cobain queria dizer quando falava que Leonard Cohen era capaz de fazê-lo suspirar eternamente. “There For You” e “To a Teacher”, com programações eletrônicas são as que mais lembram as coisas do disco anterior. A canção título também é de uma beleza devastadora. É a primeira vez em mais de vinte anos que Cohen grava algo que se assemelha com trabalhos de sua primeira fase. “Dear Heather” é quase uma música de realejo, levada por um órgão, um trumpete e uma das letras mais curtas de Cohen, repetida infinitamente ao ponto de desmontá-la, soletrando-a. A singela “Nightingale” tem um acento country e traz Cohen novamente tocando sua jew’s harp.

Para reafirmar a volta ao passado, em “The Faith” Cohen conta com a participação de músicos que não apareciam em seu trabalho há algum tempo, como o violinista Raffi Hakopian e o sensacional tocador de oud (espécie de alaúde) John Bilezikjian. Baseada numa canção folk de Quebec, a música soa como Leonard Cohen clássico. Como bônus, o disco traz uma gravação ao vivo de 1985 para uma cover de uma velha canção country, a tristíssima “Tenessee Waltz”. Dear Heather muito provavelmente não vai aparecer em nenhuma lista de melhores do ano, mas é daqueles discos que décadas depois serão redescobertos e reverenciados como merecem. Ouça e suspire eternamente.

Gabriel Rocha

Cotação:

Bar do Franck
Havana
Subway
Tulipa
Red Café

Texto publicado em algum momento de 2004 no Marca Diabo, filho ilegítimo d’O Malaco

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Tudo o que o rock precisa ser

Seguindo a cartilha do “mate-me por favor”, Strokes justificam o hype



Sabe tudo aquilo que foi produzido de melhor no rock americano do fim dos anos 60 até o começo dos 80? Sim, o tal do proto-punk: Velvet Underground, Stooges, Television, Modern Lovers, New York Dolls, Talking Heads, Blondie e todas aquelas outras bandas da cartilha “Mate-me Por Favor”? Pois é. Imagine agora uma banda de Nova York formada por uns moleques de 22 anos que seguem direitinho os passos dos mestres. Tá, não precisa mais imaginar, só dê um jeito de ter em casa Is This It, álbum de estréia dos Strokes (se é que você ainda não baixou as músicas da Internet, empolgado pelo hype em cima dos caras). E, é sempre bom lembrar, “seguir os passos” não significa chupação, pura e simplesmente. Trata-se, sim, de buscar inspiração em idéias alheias e transportá-las para outra situação. E é justamente isso que os Strokes conseguem fazer em relação ao trabalho destas bandas.

Pouco importa se os nova iorquinos são mesmo “a salvação do rock” ou se daqui há dez anos eles vão estar tocando para 200 pessoas em um boteco de Curitiba. O que interessa agora é que a banda gravou um disco “apenas” espetacular. Tente ficar imune a pequenas obras-primas como ‘Soma” e “Take It or Leave It” em que a voz de Julian Casablancas acompanha as melodias dos riffs das guitarras secas de Albert Hammond Jr. e Nick Valensi, no melhor estilo Television. A sincopada “The Modern Age” bebe direto na fonte dos Velvets circa 67. E ouvindo os gritos de Casablancas na abertura de “New York City Cops” é impossível não se lembrar de Iggy & The Stooges em Fun House. Por falar em Casablancas, o que é a voz desse cara? Com um timbre que lembra Lou Reed, Iggy Pop e Jim Morrison, tudo ao mesmo tempo, o rapaz se esgoela sem perder o tom.

“Last Nite” é algo de outro mundo. Basta ouvir uma vez para sair cantando “Laaaaaaaaaaast Niiite/She saaaaaaid…” Já em “Barely Legal”, Casablancas ameaça (“Eu quero roubar sua inocência”) e implora (“Eu só quero me comportar mal / Eu só quero ser o seu escravo”). Com nenhuma música passando da casa dos três minutos, o disquinho é curto e eficaz. Cheio de finais bruscos e paradas de tirar o fôlego, Is This It é tudo aquilo que o rock sempre deveria ser: urbano, agressivo, urgente, espontâneo, intenso, sexy, sujo, grudento e belo. 10/10

Gabriel Rocha

TEXTO PUBLICADO EM O MALACO #5 - Outubro de 2001


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O Egito que Hosni Mubarak não viu

Nosso malacorrespondente presenciou os primeiros dias de um país livre de seu ditador após 30 anos. Problemas não faltam, nem esperança

Correspondentes internacionais nunca faltaram para O Malaco. Ao longo da primeira existência (2001-2003), contamos com a inestimável colaboração do Edson Minatti, titular da coluna Minatti e a V.C.F (Vida Cultural Francesa), e do grão-malaco Gabriel Rocha, que assinou a Malacodilly Circus direto de Londres. Desta vez, O Malaco foi mais longe. Tão longe que não tinha praticamente ninguém pra contar, exceto o intrépido jornalista e músico André Seben, que ao lado da esposa Ione foi um dos raros ocidentais a desbravar o Egito dias depois da queda do ditador Hosni Mubarak. “Tínhamos a impressão de que nossas duas figuras ocidentais traziam a reboque a sensação de que a normalidade estava voltando ao local”, conta Seben neste relato histórico, que O Malaco orgulhosamente apresenta:

Eram os últimos dias da viagem. Estávamos em Istambul e embarcaríamos para o Egito em 16 de fevereiro, data da passagem comprada há quatro meses, bem antes da revolta que culminou com a queda do ditador Hosni Mubarak. A troca de e-mails com a equipe do albergue, localizado no centro do Cairo, não era nada animadora. Não estavam certos sobre segurança, se as Pirâmides e o museu estavam abertos, enfim, nas palavras de Dina, a proprietária, “não podemos prometer nada”. Para ajudar, estávamos a um dia do embarque e ainda não tínhamos certeza da confirmação do voo, quando finalmente recebemos o parecer positivo da companhia aérea. “Vamos?”, perguntei a minha esposa Ione. “Vamos!”, respondeu. Então fomos.

Chegamos à capital do Egito no início da tarde, quatro dias após a renúncia de Mubarak. O clima de euforia e otimismo era palpável, contrastando com o que a cidade nos apresentava – infraestrutura mínima, trânsito absurdo, a polícia voltando às ruas e sem o mesmo status do Exército, que estava em lua-de-mel com a população. Enfim, o policiamento era restrito ao trânsito e à guarda de alguns bancos fechados – o constrangimento da corporação era visível, afinal, haviam sido os principais responsáveis pelas cerca de 300 mortes dias antes.

Uma vez instalados no albergue, começamos a perceber o porquê de tanta revolta. A impressão que se tem do Cairo é de uma cidade abandonada à própria sorte, fruto de uma ditadura militar de mais de 50 anos, 30 deles sob o comando de um único presidente envolvido em casos de corrupção e dono de uma das maiores fortunas do planeta. Em conversas com os poucos locais que falam inglês – muitos arranham apenas o suficiente pra se garantir no comércio – chegamos à conclusão de que a revolução pede principalmente por condições de vida decentes, antes da utópica “democracia” idealizada pelos islâmicos. Muitos locais do centro do Cairo parecem um cenário de pós-guerra – casas demolidas, sujeira e total desolação, advindos do descaso de anos, e não do caos de poucos dias de protesto.

Apesar disso nunca fomos tão bem recebidos em nenhum outro país. Ouvíamos a frase “Welcome to Egypt” dezenas de vezes a cada passeio – boa parte de comerciantes (lógico) e a maior parte das pessoas contentes pelo simples fato de estarmos ali. Tínhamos a impressão de que nossas duas figuras ocidentais traziam a reboque a sensação de que a normalidade estava voltando ao local.


Acolhidos pela simpatia do povo e cientes de que as Pirâmides estavam abertas à visitação, ficamos tranquilos para, antes, fazer o que éramos impelidos – chegar à Tahrir Square, centro dos protestos que marcaram o início de uma revolução sem precedentes no mundo islâmico. Entre tanques, soldados, bandeiras e protestos isolados, dezenas de pessoas estavam reunidas num memorial improvisado aos mártires do conflito. Os soldados tiravam fotos com os locais, mas nos evitavam. Não permitiam que nós, os únicos turistas presentes, fizéssemos fotos. Depois de procurar de tanque em tanque, conseguimos negociar uma foto com um simpático militar, que viria ser nosso primeiro troféu da empreitada. Já estávamos no segundo dia da viagem, quinta-feira, e os jornais divulgavam um protesto em massa para a sexta, mais como uma comemoração pelo feito do povo egípcio. Marcamos presença, de longe, sem fotos.

Após visitar as Pirâmides, o Khan El Kalili (bazar) e diversas mesquitas estávamos prontos para ir embora, já no domingo. Não sem antes dar uma olhada final na Tahrir Square, um pouco tristes por não conseguirmos conferir o Museu Egípcio, a atração mais importante ainda fechada. Tínhamos poucas horas e, enfim, nossa maior surpresa: estavam abrindo o museu naquele momento. Fomos os primeiros a comprar os tickets e a entrar. Pura sorte e um fantástico e final troféu, com um gostinho de estar participando ativamente da história do país. Fotos para a imprensa e tudo.

Mais que conhecer o país, buscávamos desmistificar – ou confirmar – nossos preconceitos com a cultura islâmica – o uso do véu, sua religiosidade, seus costumes etc. Principalmente a situação das mulheres. Voltamos com dúvidas, é claro, mas cientes de que a democracia que buscam passa longe da que vivemos no mundo ocidental. As mulheres usam diversos tipos de indumentária: algumas cobrindo apenas a cabeça, com roupas comuns; outras de burca, deixando à mostra apenas os olhos e outras cobrindo tudo. Apesar do choque cultural, a impressão é de que se vestem com certo orgulho, parte de um código que dá certo ao modo deles. Véus dividem espaço com lingeries nas vitrines, prova de que embaixo daquelas burcas…

Afinal, submissão feminina seria proteger seus “dotes” de olhares após o casamento ou submeter-se à ditadura do silicone, por exemplo? A dúvida persiste, pendendo para o empate. Saímos do Egito querendo o melhor para aquele povo, desejando que alcance o que eles procuram. O que quer que seja.

Texto: André Seben

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Adiós Amigos

Em exclusiva, Marky diz que os Ramones voltariam em 2001. E com Dee Dee

Marky gostou mais de perguntar do que responder aos repórteres de MALACO!Marky Ramone é uma eminência parda dos primórdios do punk rock. Em 1976, Marc Bell (como se assinava na época), já havia segurado as baquetas para Richard Hell and The Voidoids, lenda do proto-punk, com quem gravou o fundamental Blank Generation. Para se ter uma idéia da importância dos Voidoids, basta dizer que Malcolm Mclaren chupou dos caras todo o figurino, som e atitude para aplicar em seus pupilos de Londres, uns tais de Sex Pistols… Em 1978 Marc se juntou aos pais da matéria, os Ramones, substituindo Tommy e assumiu de vez a alcunha de Marky Ramone. Após o show na Lupus Beer, no longínquo mês de outubro de 2000, Marky recebeu no camarim, refestelado em um sofá, os repórteres malacos Andreia Passos e Gabriel Rocha para uma entrevista exclusiva em que revelou que aquela história de “adiós amigos” é pura balela, pois os Ramones pretendiam voltar neste ano. Não contava com a morte do líder e vocalista Joey Ramone de câncer linfático em Nova Iorque no dia 15 de abril de 2001:

O Malaco - A matéria de capa da última edição da revista Spin trata dos “100 momentos mais degradantes da história do rock”. Um dos momentos fala de um episódio envolvendo você e o lendário produtor Phil Spector (que produziu artistas como Ike & Tina Turner, Beatles, John Lennon e Leonard Cohen e foi o inventor da técnica revolucionária “wall of sound”). Segundo a revista, durante as gravações do álbum dos Ramones End of the Century (1980) você teria aparecido com uma camiseta das Ronettes (banda de Ronnie Spector, na época mulher de Phil) e ele bradou furioso : “Tire minha mulher do seu peito!”, é verdade  ?
Marky Ramone- (surpreso) Saiu na Spin é? Aparecia meu nome?

O Malaco - Sim.
Marky Ramone - É a edição deste mês? Aparecia alguma foto minha?

O Malaco - Sim é a edição de outubro. Não sei se tem foto porque li a matéria na home-page da revista.
Marky Ramone - Vocês tem uma edição brasileira da Spin? Eu consigo encontrar por aqui?

O Malaco - Não, não existe uma Spin brasileira. Aqui em Florianópolis a revista chega atrasada, mas em São Paulo você encontra fácil. Mas voltando à história, tem fundamento?
Marky Ramone - Ah, sim, o Phil é uma pessoa difícil. Aquilo aconteceu mesmo. Mas eu não tirei a camiseta, não! A revista conta isso?

O Malaco - Não, eles não contam o desfecho. E aquela outra lenda de que ele teria trancado os Ramones no estúdio e ameaçado vocês com uma arma até que conseguissem gravar direito?
Marky Ramone - Ele fez isso mesmo. Phil bebia muito e tinha duas armas, uma 22 e uma 38, com as quais ele nos ameaçava.

O Malaco - Mas o cara falava sério?
Marky Ramone - Sim, mas ele sabia que tinha um disco dos Ramones para entregar, e se ele nos matasse simplesmente não haveria disco! (Nota do Editor: curiosamente End Of The Century foi o último trabalho de Spector, que vive recluso desde então)

O Malaco - E quanto aos outros membros dos Ramones, você tem contato com eles?
Marky Ramone - Sim, Sempre falo com o Johnny (guitarrista) e ensaio de vez em quando com o Dee Dee (baixista original e compositor de alguns dos maiores clássico da banda como “Rockaway Beach” e “Now I Wanna Sniff Some Glue”), com quem tenho um projeto.

O Malaco - Desde que a banda acabou em 1996 há rumores sobre uma possível volta…
Marky Ramone - Sim, os Ramones vão voltar em abril de 2001 e, o que é melhor, com Dee Dee de volta ao baixo.

O Malaco - Mesmo? E vocês vão gravar um disco novo?
Marky Ramone - É bem possível. Nós vamos participar de um filme chamado “Too Tough To Die”, vai ser um thriller punk.

O Malaco - E quanto a saúde de Joey (vocalista da banda)? Ele teve uns problemas no ano passado (havia boatos de que ele estaria com câncer) …
Marky Ramone - É verdade ele realmente teve alguns problemas, mas já está recuperado. (N. do E: Não é o que a história conta. Joey Ramone faleceu no domingo de Páscoa em decorrência do câncer que, supostamente, estava curado).

O Malaco - Uma vez você declarou que se não morasse em Nova York, gostaria de morar no Brasil. A idéia continua de pé?
Marky Ramone - Se eu escolhesse outro lugar pra morar, iria para Parati (litoral do Rio de Janeiro). Ano passado passei as minhas férias lá e adorei!

Gabriel Rocha e Andréia Passos

TEXTO PUBLICADO EM O MALACO #1 - Fevereiro de 2001

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Micareta indie no Rio Grande

Festival M/E/C/A em Xangri-lá testa os limites da farra de shows gringos pelo Brasil

A lógica requer um economês de principiante: com o câmbio amigo, o decantado potencial do ‘emergente mercado brasileiro’ e a bancarrota geral na gringa, ficou menos arriscado trazer bandas internacionais pra linha debaixo do Equador. Que o diga o Nazareth, que vai completar DUAS turnês pelo interior de Santa Catarina em menos de seis meses – o próximo passo é show privê do Rod Stewart em festa de casamento. Por isso, é cada vez menor o espanto quando se vê estrelas e bandas de primeira linha como Beyoncé, Amy Winehouse e Black Eyed Peas começando suas escalas brasileiras por Florianópolis, uma cidade que há pouco tempo mal recebia shows de Kleiton & Kledir.
Mas a nova ‘era dos festivais’ – que viu seu auge em novembro passado com Paul McCartney, Lou Reed e Planeta Terra disputando o público num mesmo fim de semana em São Paulo – teve um capítulo especial neste fim de semana, quando uma casa de música eletrônica em Xangri-lá, litoral norte gaúcho, recebeu a sensação indie dos últimos anos, o quarteto nova-iorquino Vampire Weekend. Xangri-lá, a propósito, é a cidade onde fica a praia de Atlântida, que recebe há quase vinte anos o festival do Grupo RBS que mistura quase todos os gêneros musicais que tocam em rádios pop.

Pois bem. Foi em Atlântida – retiro de muitos gaúchos bem de vida que não se contentam com coisas como Cidreira ou Tramandaí – que a gurizada do Vampire Weekend abriu o giro brasileiro, algo que só a equação do primeiro parágrafo tornou possível. O M/E/C/A, no quesito organização, foi um brinco: ambiente seguro, agradável, pessoal do apoio educado, preços nada abusivos (ingressos a partir de R$ 50, estacionamento a R$ 10 e aquela cervejinha verde a R$ 5) e atrações descoladas. Só faltou mais público. Aí a cobra começa a fumar pra quem tá se acostumando com a batelada de shows pelo país. Porque organizar uma função dessa pra levar menos de três mil pessoas (não, nem isso tinha dentro do Jimbaran no auge da noite), não tem como dar lucro.

Mas quem esteve lá não tem nada com isso. Especialmente a molecada mais antenada, do tipo que já sabe de cor as letras do Two Door Cinema Club e acham que eles têm vários hits. A bandinha irlandesa se esforçou, deu seu máximo – o que não é lá muita coisa – e saiu por cima. Muita gente ainda estava na fila da cerveja e do banheiro quando, com um mísero minuto de atraso, o Vampire Weekend dava as caras no palco principal pra discorrer seu som “Upper West Side Soweto”, quer dizer, postura de rock cabeça a serviço de um afro-pop de alto quilate. Com apenas dois discos nas costas – os excelentes Vampire Weekend (2008) e Contra (2010) – o quarteto tocou quase tudo que tinha pra gastar em 55 memoráveis minutos, 15 a menos do que a média dos shows da Amy Winehouse pelo país.

A banda caprichou, com uma trinca irresistível de largada (“Holiday”, “White Sky” e “Cape Cod Kwassa Kwassa”, que pode ser vista neste vídeo postado pelo colega Pistoleiro Diógenes Fischer) e depois só precisaram manter o clima de festinha afro. Em “Cousins”, não foi difícil cantar versos de “Frevo Mulher”, de Zé Ramalho, por cima da levada semi-frevo. “A-Punk” e “The Kids Don’t Stand a Chance” já soam como hinos e “Horchata” tem muito a ensinar pra quem torce o nariz pras maravilhas escondidas sob o rótulo de ‘world music’. Depois de “Walcott”, sem choro nem final falso, as luzes se acendem, os roadies já estão a mil e muita gente fica com a impressão que, naquele palco montado em cima de uma antiga jazida de areia, foi avistado o elo perdido entre aquilo que o Talking Heads esmerilhou há 30 anos e o que pode ser o ‘rock sem fronteiras’ do século XXI. Agora, se a fórmula de festival descolado em lugar inóspito não tiver repeteco, o que se viu em Atlântida pode ter sido apenas um milagre.

Texto: Fabrício Rodrigues
Foto: Fabiana Henrique

Rock Global: as voltas que o mundo dá

O Vampire Weekend é um dos frutos mais recentes do namoro de longa data entre o rock e a música vinda de locais fora do eixo EUA-Inglaterra. Nos anos 50, Bo Diddley já colocava pitadas de música caribenha em seu som (quando não estava tocando sua batida característica). Nos 60, George Harrison injetou doses de música indiana nos Beatles (e, por consequência, na música popular ocidental) e nos 70 o Led Zeppelin incorporou elementos musicais do norte da África em seu caldeirão sonoro. Mas o som do Vampire Weekend vem de uma linhagem direta que começa com The Clash, passa pela fase afrobeat de branco dos Talking Heads e desemboca nas incursões de Damon Albarn pela música africana.

Quando arrombou as portas do punk para permitir flertes com o reggae, ska e hip hop, o Clash arrancou a camisa-de-força do gênero e de quebra colocou minhocas na cabeça de um monte de gente mundo afora. Sem a banda de Joe Strummer e Mick Jones, dificilmente haveria The Pogues (misturando punk com música tradicional irlandesa), Mano Negra (jogando no mesmo balaio flamenco, rock, rap e música sul-americana) e Gogol Bordello (espécie de versão cigana do Mano Negra, liderada pelo alucinado ucraniano Eugene Hütz).

Contra, segundo álbum do Vampire Weekend não esconde que é assombrado pelo espírito do Clash. O título faz contraponto a Sandinista!, quarto disco da banda inglesa, de 1980 (“contra” era um grupo que fazia oposição aos sandinistas, revolucionários que tomaram o poder na Nicarágua em 1979). As citações não param por aí: a música “Diplomat’s Son” (que infelizmente ficou de fora do show no M/E/C/A) alude ao filho de diplomata Joe Strummer e “I Think UR a Contra” faz referência a “Complete Control”, música do primeiro disco do Clash.

Contemporâneos do Clash, os Talking Heads também têm culpa no cartório pela sonoridade de seus conterrâneos do Vampire Weekend. O interesse deles pela música africana aparece pela primeira vez em “I Zimbra” música que abre Fear of Music, terceiro disco da banda nova-iorquina. Mas foi no álbum seguinte, Remain in Light, que eles abraçaram de vez o afrobeat do nigeriano Fela Kuti. Na época, o líder da banda, David Byrne, e o produtor do disco, Brian Eno, estavam obcecados pelo disco Afrodisiac (1973) de Fela. Não por coincidência Eno está atualmente produzindo o novo disco do filho do falecido Fela, Seun Kuti.

Na época em que o Vampire Weekend surgiu, muita gente comparou o som deles com o da fase Graceland de Paul Simon, quando o veterano cantor e compositor foi à África do Sul gravar com músicos locais. Mas enquanto o disco de Simon parece um pouco forçado, a sonoridade do Vampire Weekend soa muito mais espontânea.

Quem melhor soube tirar melhor proveito da música africana foi Damon Albarn. Em 2002, o líder do Blur lançou o projeto Mali Music, gravado com músicos daquele país, como Toumani Diabate. Mais tarde, em 2006, Albarn recrutou o baixista do Clash, Paul Simonon, e o lendário baterista de Fela Kuti, Tony Allen, para montar o The Good, The Bad and The Queen.

No Brasil o Vampire Weekend foi muito comparado aos Paralamas do Sucesso. Faz sentido, já que nos anos 80, Herbert Vianna & Cia bebiam da mesma fonte onde agora se esbalda a banda americana: juju music, música jamaicana e o punk global do Clash.

Irônico mesmo é que o Vampire Weekend tenha caído nas graças da indiezada sem suingue, aquele povo que gosta de curtir uma dor de cotovelo ao som de Belle & Sebastian e que até agora não sacou qual é a do Do Amor. O fato de o Vampire Weekend ter alcançado esse tipo de público é um indício de que ninguém segura mais esse tal de ‘rock sem fronteiras’.

Texto: Gabriel Rocha
Foto:
Fabiana Henrique

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Malaco da Silva

A sabedoria do sambista mais respeitado e admirado do País

É difícil entrevistar Bezera da Silva e não indagá-lo sobre a diferença entre um malandro e um mané. Chavões à parte, O Malaco foi buscar numa peculiaridade das músicas que ele canta o ponto central da conversa: a falta da palavra “amor” nas letras. E aí o intérprete mais longevo do samba deita e rola.”Se o amor é tudo isso que eles falam, então na Terra ele não mora”, define. Emendando um assunto atrás do outro, Bezerra opina sobre encrencas com a polícia, jornalistas, samba, favela e, óbvio, malandragem.

A palavra AMOR. Que Bezerra não soletra.

“O problema não é a palavra. Eu sempre procurei ouvir as minhas opiniões e as dos outros, vivendo dentro de uma realidade. Então, eu tive prestando a atenção nessa palavra, A-M-O-R, eu procurei saber o que era, não falando dos compositores do mundo artístico, que esse é um tema manjado, cansado, fica cansativo. Você vê a maioria das composições é “meu amor, eu te amo”, não sai disso, é uma coisa de novela. Quanto à palavra amor, eu procurei saber, e acordo com a definição, isso não pode existir aqui na Terra. Segundo a definição, ‘o amor não tem sexo, o amor é puro, é sublime, eterno, divino, puro, lindo, perfeito, sem defeito…’. Se o amor é isso tudo, então aqui na Terra ele não mora, bicho, de maneira nenhuma.

Inclusive tem frases como ‘fazer amor’, eu queria saber onde fica essa fábrica. Se você for observar, ‘amai-vos uns aos outros’ não existe. Eu tive vendo o nono mandamento da lei de Deus, ‘não cobiçar a mulher do próximo’, ninguém passa nessa, só viado (risos generalizados). Aparece uma mulher boa pra caralho, ah… pecou, já foi pro inferno. Entendeu bem?

Mas esse tema começou uma vez lá na Rádio Globo: ‘o Bezerra da Silva não canta o amor’, isso não tem nada a ver com o gênero, entendeu. Eu não acredito nessa história. De vez em quando eles dizem ‘você diz que não tem amor’, então fica com o teu pra lá que tá tudo bem, agora, não vai querer me levar pra grupo que eu não sou nenhum otário, porra, entendeu. Quer dizer, a mulher te ama, daqui a pouco te bota um chifre, que porra de amor? É de boi? Porra, cara, entendeu? (risos) Cadê o amor no sistema capitalista? Que amor que tem? Se botou ‘nosso amor’ na música, já não serve.

Existe também um termo, uma frase bem marcante ‘o amor é eterno’. Eu não sei dizer o que é eterno. É claro, todo mundo sabe o quê que é, mas daqui a pouco você amava uma mulher, era gamado mas já largou ela, então etcetera e vai pra casa do cacete. Vida a dois é um problema sério, como acontece depois que casou e descobre o defeito da mulher, depois separa, isso aí é um agá, tá havendo aí um negócio de caô caô do cacete, pra engrupir, pra levar a rapaziada pra grupo, morô?

Se amanhã você for namorar uma moça, ou vice-versa, se alguém for namorar a sua irmã, se ela quer o fulano, a primeira preocupação dos pais é saber onde você trabalha, se tem condições financeiras de sustentar a filha dele, então o amor vai pra casa do cacete. Primeiro ele vai ver o vil metal. Esse amor é foda né, bicho, não dá pra eu entender. Então como não gosto de agá, meu negócio é na dura, é zero a zero.”

Drogas, Polícia…

“Eu sou um cara realista e não se trata de malandragem, sabedoria, nem porra nenhuma. Se trata que eu sou ruim de me levar pra grupo porque, por exemplo, eu ensinei meus filhos. E você vivendo dentro de uma realidade, você passa a sofrer pouco, você não tem mais surpresas, sabe que maconha faz mal, que cocaína faz mal, você sabe que você vai preso, que há repressão, mas tem a sua saúde que vai pro beleléu, então você é um cara preparado pra vida. Não é que eu seja, por exemplo, como essa garotada do hip-hop, Racionais, toda essa juventude gosta de mim, porque realmente eu sempre adorei uma coisa que chama real. Porque não há tempo pra viver mais enganado, pra sonhar acordado, tá entendendo? Agora, eu me dou bem, eu vivo bem. Jamais eu vou discutir com você, te convencer.

Mas há um tempo atrás, até os anos 70, se a gente tivesse conversando aqui, passava a polícia e ficava pedindo ‘documento, documento!!’ e sabe o que eles queriam? Era uma carteira profissional assinada. Era a prova de trabalho. Aí você podia ir por aqui, por ali.. Então se não tivesse aquela carteira eles levavam você pra delegacia para ‘averiguação’. Mas isso era arbitrário. Então o policial se achava no direito de zoar de você e convidar você pra ir à delegacia, chegar lá e bater um boletim, ler a sua ficha penal seja lá o que for daí depois pediam desculpa, coisa e tal, botavam você no carro e deixavam você no mesmo lugar onde tinha sido pego. Sabiam que você não fazia porra nenhuma, aí botavam no xadrez 24 horas pra esperar o boletim, mostrar que tá trabalhando, com as estatísticas e o policial que prendia mais ganhava um prêmio. Então ele prendia os otário, né? Não matei, não roubei, então eu não vou correr. ‘Pare, eu sou Polícia’, legal, bicho. ‘Agora sai, Bezerra da Silva, vai embora e não aparece mais aqui’. E eu respondia: ‘tu acha que eu vim sozinho pra delegacia ou foi você que me trouxe?’. Pergunta cretina. (risos). Minha folha penal é ‘nada consta’, mas se bobear, eles dizem que sou mal-criado, mal educado.”

Cantando para sobreviver

“Eu saí de casa com 15 anos de idade e fui lutar pela vida, trabalhar em construção civil e coisa e tal. Quando eu não tinha onde morar eu morava na rua, e acabei por me criar no Morro do Cantagalo. Ali eu vi de tudo, aprendi tudo.. então é um universo próprio, né? É um diploma que bem poucos têm. O morador do morro é um trabalhador incansável. Então, quando você aprende o mundo com a própria vida, então ninguém agüenta você, ninguém te leva pra grupo. Que porra de vim me falar por livro, o caralho! Tudo bem, você vai pra escola, aprende a falar bonito, mas não vai levar você pra grupo. Entrei em cana 21 vezes, sou campeão de averiguação sem fazer porra nenhuma, entendeu? Todo dia quase entrando em cana lá, não sei por quê…

Realmente existe uma mídia violenta, selvagem, desumana e tal, então eu vivo num gênero que é marginalizado, desde os tempos que eu cheguei do Recife, que não sou carioca, me criei no morro, aquela coisa toda, porque esse gênero já existia, eu não inventei nada. Então quando teve a chance, eu fui o primeiro a gravar, eu não criei nada, entendeu? Quando eu não era nascido, o gênero já existia. E fiquei também, dei uma sorte que não tenho concorrente, por isso que eu tô de pé até hoje. Porque se eu cantasse esse ‘meu amor eu te amo, pá pá pá’ eu já tinha me fudido há muito tempo, já tinha batido na trave, ido pra casa do cacete. Então essa é a minha realidade.

Eu canto a realidade brasileira, eu canto o dia-a-dia do compositor pobre, porque eu não sou autor, tô cansado de dizer isso, certo? Eu gravo para os compositores do morro, da favela, da periferia, da Baixada Fluminense, quer dizer, as pessoas humildes, trabalhadores de baixa renda, então gravo pra esse pessoal. Então eles escrevem o dia-a-dia deles, na favela, e o gênero pegou, foi conquistando o público de todas as idades. Já fui até fazer palestra na universidade, lá em Vitória. Você não é obrigado a acreditar em nada, pode fazer o que você quiser. Não tem esse negócio de amor de mãe, amor de pai, amor de porra nenhuma. Se realmente tivesse mesmo, tem mãe que abandona filho, tem mãe que mata o filho quando nasce, joga na lata do lixo, tal. Complicado, então.”

Samba, partido alto ou pagode?

“Isso aí é um terreno de músico, e eu sou músico. Trabalhei na Sinfônica da Globo oito anos, então esse negócio de partido alto, essas coisa tudo, fica dentro de um compasso, se você é músico sabe disso. Então não tem essa história, tem samba, entendeu, samba, dois por quatro. Agora você pode cantar o que você quiser ali dentro, mas é dois por quatro. Esses subtítulos, esses rótulos que eles botam, pagode, sambode, MPB, não sei o quê, tudo isso eu vejo como uma maneira de querer ludibriar as pessoas, entendeu? Eu sou sambista, acabô aí. Cabô. Agora, pagode é um termo pejorativo, apesar de ter dicionário que dá uma interpretação, tem outro que dá outra, você fica sem saber. Pagode, se você for abrir um diconário, é ‘templo pagão de alguns povos asiáticos’, ou então, ‘pândega ou divertimento’, e dentro dessa informação não tem nada a ver com dó ré mi fá sol lá si. É um negócio nosso, da nossa cultura, da falta de educação, estupidez.

Eu já passei em lugar que te densina violão em três meses, não tô entendendo, ou eu sou muito burro, meu professor também, porque violão em seis meses você não aprende nem a afinar. Meu filho toca bateria porque eu ensinei. Porque se você for pra uma escola, te ensinam a tocar aquele rock, tum, tum, tum, daí não passa, acabou, dois por quatro não vai tocar nunca. O garoto não sabe, o pai não sabe, vai gastando dinheiro, vai não sei o quê, então nós temos essa série de, problemas sociais, de educação e cultura, e o pessoal vive enganado. ‘Onde é o seu nariz?’ (aponta) ‘ah, é aqui no pé’ (risos). Tá entendendo? Uma série de analfabetos se apropriaram do Brasil, dá até pena, é doloroso. Não tenho curso superior não sou formado em porra nenhuma e nem quero. Leio código penal, aquela coisa toda. Quer dizer, fico olhando, observando os agás, né, os caô caô, tudo grupo, então eu não vou cair naquela.”

Culpa da imprensa

“Uma vez tava num programa, tava brincando com os jornalistas, até que um, famoso, disse ‘um nunca vi crioulo pobre, favelado, bem criado e bem educado’. É mal criado porque o cara passa muita fome, mal educado porque ele não vai pra escola. Daí veio o (Jorge) Mascarenhas e disse: ‘Não, mas acontece que educação é uma coisa de cultura. Educação é de berço’. E eu falei: ‘Mentira tua. Você é omisso’. Não existe educação de berço. Ah, vá sacanear o cacete.. Será que a pessoa não sabe o que quer dizer educação? Eu tenho dois filhos, e paguei escola pra eles porque podia. Porque no Brasil não tem curso de graça pra ninguém, e quando tem é agá. Não é política, é realidade.”

Décadas de Bezerra

“Fazer sucesso é realmente difícil, mas difícil ainda é manter. Tem uns colegas meus que acerta numa música só e acabou. O poder econômico, dentro do rádio, atua contra o talento. É preciso que você tenha muita ajuda de Deus, seja muito esperto. Por exemplo, em 1979, quando o Brasil passou a conhecer essa sigla, essa marca Bezerra da Silva, eu já tava na área há muito tempo. Trabalhava como músico, portanto… De 69, 65 pra cá, praticamente eu devo ter uns 34 anos de área. Mas durante aquele período de músico, quando eu trabalhava na Rede Globo, ninguém sabia, o pessoal só conhece depois do sucesso. Então tudo começou em 79, entendeu?. E eu segurei até hoje.

Mas aquela leva de colegas que veio junto, praticamente dançou todo mundo. Janaína, Neguinho da Beija-Flor. Porque.. não é que ele não seja bom, eles tão sendo usados. E também porque eles cantam uma coisa que é corriqueira, e tem que gastar muito, tem muita pedra pra chegar lá. E se você entra no gênero romântico, como eles falam, tá arrumado. Vai ter que encarar muita coisa, vai ter que encarar Roberto Carlos, que é profissional, inteligente, tem máquina publicitária, tal, e uma série de coisas, e depois o vil metal. E o público tá sempre enganado. O público é sempre aquele último a saber. Principalmente o rádio, hoje em dia, é na base do vil metal. Você paga pra cantar na televisão, paga pra cantar no rádio, paga pra não sei o quê. Então não é pra pobre. Você observa, dá até pena. Vocês lembram daquele negócio do sapatinho (o ex-bando do filho do Zico, Só No Sapatinho)? Cadê? Vendeu 100 mil naquela brincadeira. E acabou. É diferente do crioulo, do pobre, favelado, encarar a realidade. Porque eu fui consagrado pelo povo, e não pela mídia.”

Entrevista: Fabrício Rodrigues/Gabriel Rocha/Romeu Martins
Fotos:
Fred Carvalho

TEXTO PUBLICADO EM O MALACO #1 - Fevereiro de 2001

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O véio é foda (Neil Young no RiR, 20/01/2001)

Com simplicidade, Neil e banda fazem o melhor show que já passou pelo país


É tudo que Neil precisa para fazer um show antológico: seus  comparsas e a velha Gibson

O caminho até o paraíso é ermo, turvo e sombrio. Para que os bem aventurados que estavam na Cidade do Rock no segundo sábado do evento pudessem ter contato audiovisual com o maior guitarrista vivo do planeta, muitas foram as provações (leia resenha do dia 20/01). Só lá pela uma e meia da madrugada do dia 21 de janeiro é que surge o “véio”, 55 anos nas costas, 35 de rock and roll e uma simplicidade incompatível com seu status de gênio. Antes mesmo dele dar as caras, o primeiro espanto. Velas em cima dos amplificadores, a imagem de um pajé ao lado da bateria de Ralph Molina, que foi estrategicamente colocada no meio do palco. O nababesco Palco Mundo, com sua super infra estrutura, foi solenemente ignorado.

Aí sim entra o véio, junto com seus três capangas do Crazy Horse. Não há lição maior de rock and roll do que quatro sujeitos vestidos como uns broncos, sem produção nenhuma de palco ou coisa parecida, começar um show com “Sedan Delivery”, misto de pancadaria com refrão calmo. Nem bem a música termina, depois de uns sete minutos, e Neil pisa no pedal overdrive para anunciar o riff de “Hey Hey, My My”, tocada com mais sujeira do que quando foi lançada, em 1979. A honrosa versão gravada pelo Oasis deve ter difundido o clássico para alguns pobres mortais que sequer sabiam de sua existência, e a música foi cantada a plenos pulmões por boa parte dos mais de 100 mil presentes.

A banda, que voltou a ensaiar há apenas três meses, parece estar tocando “Cinnamon Girl” como se tivessem gravado ontem, embora a música tenha lá seus trinta e poucos anos. Cadenciada, pesada, perfeita. Entre os clássicos, algumas faixas do excelente Ragged Glory (lançado em 1990) se destacaram, como “Love And Only Love” e “Fuckin’ Up”, que tem um dos riffs mais grudentos de sua carreira.

Um dos vários "duelos" com Frank Sampedro.  Lição que  virtuosismo é plenamente dispensável no rock and roll.Eis que chega o momento mais memorável de sua apresentação, do festival e, possivelmente, da história dos shows que passaram pelo Brasil: a dobradinha “Cortez The Killer” e “Like A Hurricane”. É difícil contar a um pangaré o que aconteceu no palco, mas vamos lá. Na primeira, ele deu a maior aula de guitarra que se pode ter atualmente. Não adianta ter toda a técnica do mundo. Nada nem ninguém é capaz de tocar durante 12 minutos aquela canção e daquela forma, proporcionando o primeiro momento “intimista” do show. Na outra, mostrou que, perto dele, as guitarradas do jovem sônico Thurston Moore pareceram tão ofensiva quanto as que o Dengue tocava no Xou da Xuxa. Pobre Moore, pobre todos os guitarristas que querem fazer do feedback seu sustento.

Com sua esposa e a irmã nos backing vocals mais o teclado de Frank Sampedro, “Like A Hurricane” ganhou uma versão antológica, emocionada e emocionante. Quando parecia se encaminhar para o final, com todo mundo espancando seus instrumentos (mas o mais importante, tirando melodia disto, sem se ater à simples “atitude”), Neil sacrifica sua Les Paul Standard arrancando-lhe as seis cordas e batendo no captador para tirar ruído. Com o punho sangrando, ainda voltou à melodia original, só que sem o som da guitarra, preenchido por feedbacks ensurdecedores.

Podia parar por aí, mas ainda há coisas como “Rockin’ In The Free World” e a espetacular “Powderfinger”. Então, o bis. A sangrenta balada “Down By The River” parece ser o fim da apresentação. Mas com a banda entoando como se fosse um hino os versos “down by the river I shot my baby”, não tinha como terminar. Com um sorriso de orelha à orelha, Neil e o Crazy Horse se despedem e viram as costas em direção ao backstage. Até que o véio resolve mudar de idéia, ergue o dedo e grita “one more” para a banda que, obediente ao mestre, retoma seu devido lugar para definitivamente encerrar os trabalhos com a barulhenta “Welfare Mothers”.

E o Rock In Rio podia terminar ali, no auge, com um dos poucos sujeitos merecedores do título de Gênio (com maiúscula mesmo), fazendo um show do caralho, com alma, num set list impecável. No meio do público, um fã escancarou a bandeira do Canadá e ficou tremulando-a acima do público. Que Canadá que nada. Por mais que seja nativo de Toronto, e por mais americana que seja sua música, o que Neil e banda mostraram no palco não pertence a povo nem a tempo nenhum. Poderia ser 1976, poderíamos estar no Afeganistão, na Finlândia, ou mesmo ficar imaginando que tudoaquilo foi apenas um sonho de fã, que se imaginou vendo o melhor show de sua vida. O véio é foda. Com ele, até isso vira realidade.



Fabrício Rodrigues

TEXTO PUBLICADO EM O MALACO #1 - Fevereiro de 2001 

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Cem anos em dez

O Malaco! foi uma aberração. Primeiro, porque foi feito pra web mas era lançado como revista (ou zine) em formato de edição fechada. Segundo, porque só depois de criado notamos que poderia ser um trabalho de conclusão de curso. Terceiro, porque teimava em tratar de cinema, música e quadrinhos numa cidade que praticamente não tinha nada disso. E ainda por cima tinha uma exclamação no título.

Contra todos os prognósticos, O Malaco! durou. Em dois anos e meio de trabalho 100% no amor, foram 14 edições, muitos colaboradores e várias histórias bizarras – como a edição nº 7, que já podia ser lida quando acessada em São Paulo mas que, em vários computadores de Florianópolis, só aparecia a edição nº 6, o que mostra que até no acesso a protocolos de internet nossa sede estava ridiculamente atrasada.

O site se resumia na vontade de um grupo de meia dúzia de jornalistas (metade recém-formada outra metade na finaleira do curso), e vários amigos colaboradores, de criar um fanzine/revista udigrudi com base naquilo que formou nosso interesse por cultura pop (das revistas da Circo aos zines de colegas de curso que ousavam e avacalhavam com o jornalismo) adaptado às condições do ano 2000: formato impresso inviável e ultrapassado, web a custos ínfimos e com possibilidades mil de difusão, blá blá blá… O Malaco!, a aberração, foi também uma escola. Dava pra testar tudo aquilo que não tinha cabimento no dia a dia de nossos empregos formais, além de mandar às favas muito conceitinho idiota da ‘acadimia’.

Mas estes dez anos que marcam a estreia do site, em janeiro de 2001,  hoje parecem cem, em termos de web. Os arquivos cabiam em um disquete, a atualização era feita em conexão discada, nossas fontes de informação eram revistas, livros ou geralmente a própria memória, ‘blog’ era só uma onomatopéia e sites de relacionamento eram coisa proibida para menores de idade – o que dirá You Tube, Twitter e o escambau. Naquele tempo, as pessoas até acreditavam naquilo que a gente escrevia.

E pra marcar o revival d’O Malaco!, ressuscitamos de nossos arquivos a resenha do cavalar show que Neil Young e o Crazy Horse fizeram no dia 20 de janeiro de 2001, no encerramento do penúltimo dia do Rock In Rio III. Porque o Véio personifica, e engrandece, o malaco way of life. Pegue sua naftalina e dê uma sacada no que vem por aí…

 

EQUIPE O MALACO!

 
Em 2001, a equipe grã-malaca irresponsável pelo site era: Fabrício Rodrigues, Frederico Carvalho, Gabriel Rocha, Giuliano Ventura, Ramiro Pissetti e Romeu Martins (mais um catatau de cúmplices e colaboradores…)